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Maria Celeste Crostarosa: uma inspiração para a Vida Religiosa. Destaque

Quarta, 05 Outubro 2016 22:30
Maria Celeste Crostarosa: uma inspiração para a Vida Religiosa.
Celebrar, em 18 de Junho de 2016, a Beatificação de Madre Celeste Crostarosa (1696-1755), é motivo de alegria evangélica não só para a Ordem do Santíssimo Salvador(Redentoristinas) e para a Igreja do mundo inteiro, mas também para nós Redentoristas que somos frutos dessa inspiração divina. Daí se faz fundamental reconhecermos nessa esplendorosa mulher, atualmente beata e apaixonada por Deus, o título de inspiradora da Congregação no Santíssimo Redentor, dentre outros inúmeros títulos que podemos deslumbrar nessa monja exemplar. Porém, aqui nos limitamos a contemplar em Crostarosa alguns traços fundamentais e marcantes de uma bela “alma religiosa chamada por Ele, [Jesus Cristo], em seu seguimento” (CROSTAROSA, Maria Celeste. Trecho daAutobiografia.Trad. J. B. Boaventura, p.17, acréscimo nosso) que é exemplo de motivação tanto para as monjas redentoristas, e as religiosas do mundo inteiro, como para nós, religiosos da Vida Consagrada.
Preliminarmenteo preconceito básico que podemos quebrar é aquele que relega a vida monástica há uma solidão e fechamento para vários aspectos da Vida Religiosa Missionária. Resolutamente as ordens monásticas são tanto religiosas e missionárias como as Congregações ou modos de Vida apostólicos. E diga-se de passagem, que uma coisa comum que nos uni e comungamos, independente de se estar na vida monástica ou apostólica, em casas de formação, ou paróquias missionárias, é a Vida Religiosa Consagrada. Na fundadora das Redentoristinas,Maria Celeste, encontramos essa digna e magnífica expressão de Religiosa. 
Como as primeiras virgens (nas proximidades do século III e IV) que buscaram uma vida em total dedicação as Deus e as coisas divinas, assim também foi Crostarosa, desde os 05 ou 06 anos, quando, conhecendo as misericórdia de Jesus para com ela, quis amá-lo e servi-lo, numa doação total de si mesma. Esse desejoíntimo e inquietante de Deus, que ela não sabia explicar inicialmente, é uma marca característica da radicalidade da Vida Religiosa.  A sua experiência espiritual brotava de uma sensibilidade feminina profunda para com a misericórdia do Pai e um desejo de agradar a Jesus, pois este “Ora dizia ao [seu] coração: Deixa as criaturas, ama-me somente. Ora dizia: Vem a Mim entrega-te toda a meu amor e eu te darei os verdadeiros contentamentos” (Ibidem,p. 19, acréscimo nosso). A radicalidade do amor, numa intimidade profunda, desembocava em um amor apaixonado por Jesus. Assim desde muito nova “ela mandava seus suspiros amorosos a Deus, [e], muito frequentes, tinha desejos e ardor na vontade, e não sabia como satisfazê-los” (Ibidem, p.18). Portanto, esse desejo profundo de fazer comunhão com Deus, a partir dessa sensibilidade profunda de fé é o primeiro elemento da essência de sua religiosidade, que deve inspirar a nossa trajetória, enquanto religiosos (as).
Outro elemento característico de sua espiritualidade, enquanto inspiração para Vida Religiosa, era a oração. Não se trata portanto, de práticas metodológicas e formas oracionais, mas de uma intimidade profunda com Deus, com Jesus misericordioso, que arrebatava-a muitas vezes em um amor profundo porJesus. Os exercícios espirituais de São Pedro de Alcantara, os momentos de profunda meditação, o silêncio interior e exterior, e os momentos de recolhimentos para rezar,a fim de se encontrar com Deus, foramos instrumentos iniciais da sua vidaque a possibilitou progressos na vida de oração e maturidade espiritual. Porém, outros recursos oracionais marcam a experiência crostarosiana. Todos esses meios foram contributos para que ela aprofundasse e amadurecesse sua experiência de fé e comunhão com Deus. Por meio disso, ela crescia na sua unidade com Deus a tal ponto de estar “toda cheia de bons desejos com resolução grande de se dar toda a Deus, e começar verdadeiramente uma vida santa” (Ibidem, p. 21).Neste sentido observamos a amplitude, profundidade e extensão da experiência de oração que Irmã Celeste tinha, tão necessário nos tempos atuais para a Vida Religiosa.
Se a Vida Consagrada tem sua expressão espiritual e jurídica nos votos evangélicos, para a Beata Celeste tal profissão religiosa não se sustenta como práticas ou normas formais.Se certa tradição do seu tempo relegou os votos na sua experiência formal negativa do “não pode”, em Crostarosa tal experiência é substituída por um significado profundo único e atual: a unidade e permanecia no amor misericordioso de Deus. A sua forma de viver a profissão era mais do que normaspráticas acéticas que não possuíam sentido em si mesma. Segundo sustenta Domenico Capone sobre Celeste, ela “professa não a pobreza, mas Cristo pobre; não a obediência, mas Cristo obediente; não a castidade, mas Cristo que, com a pureza de seu ser,[...] ama a Deus e ama a todos os homens”(CAPONE, 1999, p.25).Na sua experiência religiosa, os votos e regras de vida, eram prescindidos de umafonte motivadora, que impulsionava-a para a liberdade evangélica e realização da Vida Consagrada de modo mais substancial, e além das regras. Era a comunhão dialogal, espiritual, experiencial com a Santíssima Trindade, e de modo especial Jesus, seu esposo, que fazia com que ela não só vivesse a Vida Religiosa Monástica, mas empreendesse um espírito renovado e autônomo a frente de seu tempo. Podemos dizer que a inspiração de Crostarosa na Vida Religiosa é a abertura da consciência livre e autônoma para as investiduras que o Espírito nos chama, nesse modo de vida, para realizar com maestria a vontade de Deus.
Outro fator característico desta Beata é a experiência da fraternidade evangélica. Ora se a vida monástica a colocava em vários momentos de oração, contemplação e recolhimento, por outro lado se tinha os momentos de encontros, entretenimentos e recreios comunitários. Nessa experiência podemos dizer que ela possuía um projeto de vida que atendia as necessidadesevangélicas de suas irmãs. A partir da sua regra de vida, emitida pela experiência espiritual com Jesus, ela se orientava na vida fraterna para habitar e conviver entre as irmãs, a fim “de ajudar sua eterna salvação e o bem de suas almas”(Ibidem, p. 39). A fonte dessa disposição fraterna era a experiência do seu amado Jesus: “Amarás o teu próximo, e não lamentarás de qualquer coisa que te for feita por ele” (Ibidem, p. 40). Assim se expressava Jesus na experiência dialogal dela: “Quando tu sentires as graças e os bens que eu compartilho com teu próximo, tu te comprazerás como se o tivesses recebido” (Ibidem.). Essa é a alegria com o crescimento de felicidade evangélica do outro. É expressão da verdadeira fraternidade e caridade que brota do coração de Deus. A fraternidade presente em Crostarosa é estímulo iluminante para a Vida Religiosa.
Outro elemento significativo no itinerário da vida de Crostarosa, exemplar para a Vida Religiosa, é a prática das virtudes evangélicas teologais: fé, esperança e caridade. Estas, apesar de não ser explicitada nas regras monásticas feita por ela, estavam contidas nas nove regras do Instituto. Sobre as virtudes praticadas por ela podemos destacar a humildade, a abnegação de si e a mansidão profética, dentre outras. Em suma, todas as virtudes possuem sua fonte na experiência espiritual com Cristo. “Ele é uma escada mística onde o homem sobe da terra ao Céu[...]. Portanto o homem ascende das misérias desta terra por meio desta escada mística de ouro que são as virtudes da vida de nosso Senhor Jesus Cristo”(Ibidem, p.56). Se a vida de Celeste e a construção das regras religiosas são marcadas pelo progresso virtuoso, as vias para tal empreendimento “são as obras e as virtudes de Jesus Cristo que se fazem obras da [sua] própria alma pela graça”(Ibidem. Acréscimo nosso).
Assim, de tal modo podemos perceber que a beata vida não consiste nas práticas formais, mas em uma experiência baseada nas verdades da fé, em que esta “é infusa em nosso intelecto por dom sobrenatural”(Ibidem.), isto é, por dom divino que transcende a natureza humana, como acentua São Paulo em relação a graça de Deus(2Cor.12, 7-9). “E a vida é o amor, e a união com o amado Verbo. E portanto se conclui ser Ele peregrino naqueles que são unidos a Ele por amor e unção verdadeira pela fé, pelas obras santas e pela graça do Espírito Santo”(Ibidem.).
A leitura-oracional-meditativo-contemplativo das Sagradas Escrituras, a Celebração eucarística, a Adoração ao Santíssimo Sacramento e a Confissão são práticas sacras e litúrgicas de fé, constantemente realizada por Crostarosa na sua Vida Religiosa. Sem tais elementos não é possível entender a sua espiritualidade cristocêntrica e muito menos a mística que se desabrocha na sua espiritualidade. Esse percurso deve nos inspirar para a radicalidade evangélica, no itinerário da Vida Religiosa, e para encontrarmos as fontes fundamentais dos novos caminhos de evangelização. Em Crostarosa também encontramos elementos significativos da piedade popular como as práticas devocionais da reza do terço e as meditações oracionais de são Francisco de Sales. Neste sentido, a piedade popular e práticas devocionais são recursos que auxiliam na promoção da Vida Religiosa.


Por fim, podemos perceber que a Beata Crostarosa passou por um bom discernimento na sua maturação religiosa espiritual. E isso se fez pela colaboração dos diretores espirituais, confessores, amigos próximos, irmãs e irmãos religiosos. Sua postura de diálogo, comunhão, críticas, conflitos e inspiração divina, no seu tempo, só acentua o caráter comunitário de sua religiosidade e a necessidade de responder, conforme os desígnios de Deus, as exigência do seu tempo, na realidade da vida monástica.  A fundação da Ordem do Santíssimo Salvado, as reformas e mudanças que ela empreendeu nos mosteiros por onde passou, qualifica-a como pioneira do seu tempo, e devem nos inspirar para empreender semelhante renovação na Vida Religiosa Consagrada conforme os sinais do tempos atuais e suas as diversas realidades.Que a Bem aventurada Maria Celeste Crostarosa nos ajude a ser sal da terra e luz do mundo no cotidiano da vida religiosa.
 
Noviço Redentorista Isaias
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